Ela é sem dúvida, uma das frutas mais populares do planeta — consumida diariamente por milhões de pessoas em todos os continentes. Contudo, apesar de sua abundância aparente nos supermercados, uma grave ameaça à banana vem ganhando força silenciosamente nos últimos anos. Mais especificamente, o futuro da principal variedade comercializada globalmente, a Cavendish, está em risco devido a uma doença fúngica altamente destrutiva. A seguir, entenda como essa situação se desenvolveu, por que ela é tão preocupante e quais soluções estão sendo buscadas.

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O que está ameaçando a banana? A invasão do fungo Fusarium TR4
Em primeiro lugar, é fundamental destacar que a ameaça à banana não surge do nada: ela tem nome, causa e histórico. Trata-se do Fusarium oxysporum f. sp. cubense, raça 4 tropical (TR4), um fungo do solo que ataca as raízes das bananeiras, bloqueando a circulação de água e nutrientes. Como consequência, as plantas murcham, amarelam e, eventualmente, morrem — sem possibilidade de recuperação.
Além disso, o TR4 é extremamente resistente: ele pode permanecer inativo no solo por até 30 anos, sobrevivendo a secas, inundações e até à ausência de hospedeiros. Portanto, uma vez que uma plantação é contaminada, ela se torna inutilizável por décadas. Ademais, o fungo se espalha facilmente por meio de mudas infectadas, água de irrigação, equipamentos agrícolas e até nas solas de sapatos.
Por que a Cavendish está tão vulnerável?
A resposta reside na monocultura e na baixa diversidade genética. Atualmente, cerca de 99% das bananas exportadas no mundo pertencem à variedade Cavendish — uma escolha feita após o colapso da anterior líder, a Gros Michel, na década de 1950. Naquela época, outra raça do mesmo fungo, o TR1, dizimou plantações inteiras, forçando a indústria a migrar para a Cavendish, que parecia resistente.
No entanto, a Cavendish também é uma bananeira clonal: todas as plantas são geneticamente idênticas, produzidas por propagação vegetativa. Assim, se uma planta é suscetível ao TR4, todas são. Por isso, a ameaça à banana hoje é ainda mais crítica: não há substituto comercial pronto e escalável.
Como o TR4 avançou pelo mundo — e chegou à América Latina
Inicialmente detectado no Sudeste Asiático nas décadas de 1980 e 1990, o TR4 se espalhou para a Austrália, Oriente Médio, África e, mais recentemente, para as Américas. Em 2019, confirmou-se sua presença na Colômbia — o primeiro país produtor da América Latina a registrar a doença. Desde então, casos também foram identificados no Peru e, em 2023, no Equador, maior exportador mundial de banana.
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Vale ressaltar que, embora o Brasil ainda não tenha registros oficiais em áreas comerciais, a proximidade geográfica e o intenso tráfego de insumos agrícolas aumentam consideravelmente o risco de introdução acidental. Diante disso, órgãos como o Ministério da Agricultura já intensificaram medidas de vigilância fitossanitária nas fronteiras e portos.

E as soluções? Pesquisa, resistência e diversificação
Apesar do cenário alarmante, nem tudo está perdido. Pesquisadores ao redor do mundo trabalham em múltiplas frentes para conter a ameaça à banana. Uma das estratégias mais promissoras envolve edição genética: cientistas já desenvolveram variedades de Cavendish com genes de resistência ao TR4, obtidos de outras espécies de banana ou até de bactérias. Alguns desses protótipos já foram testados com sucesso em campo, embora ainda não estejam prontos para larga escala.
Outra abordagem consiste em retomar variedades tradicionais ou híbridos resistentes, mesmo que menos adequados ao transporte internacional. Nesse sentido, instituições como a Embrapa, no Brasil, conduzem programas de melhoramento genético focados em bananas regionais (como a Prata e a Maçã), que possuem maior variabilidade genética e potencial de adaptação.
Além disso, práticas agrícolas sustentáveis — como rotação de culturas, uso de biofertilizantes e barreiras físicas em áreas infectadas — podem retardar a propagação. Contudo, é importante enfatizar que nenhuma dessas medidas, isoladamente, resolve o problema. A longo prazo, só uma combinação de inovação, diversificação e cooperação internacional será capaz de neutralizar efetivamente a ameaça à banana.
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O que o consumidor pode fazer?
Embora o controle da doença dependa principalmente de produtores e governos, o consumidor também tem papel relevante. Por exemplo, ao valorizar variedades locais e menos padronizadas, ele estimula a diversificação do cultivo — o que, por sua vez, reduz a pressão sobre a Cavendish. Da mesma forma, evitar o descarte inadequado de restos de banana em áreas agrícolas pode ajudar a prevenir a disseminação acidental do patógeno.
a hora de agir é agora
Em síntese, a ameaça à banana é real, científica e urgente. Ela não se trata de especulação, mas sim de um processo em curso, com impactos econômicos, sociais e alimentares profundos — especialmente em países onde a banana é fonte essencial de renda e nutrição. Contudo, ainda há tempo para reverter essa trajetória, desde que haja investimento contínuo em ciência, políticas públicas consistentes e conscientização ampla.
Afinal, preservar a banana não é apenas salvar uma fruta: é proteger ecossistemas, meios de vida e a segurança alimentar global.


Apaixonada pela vida saudável, estudante e entusiasta, redatora do corpo certo.
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