Overtraining: Por Que Atletas Amadores Estão Entrando em Colapso — E Como Você Pode Evitar Isso?

Muita gente acredita que, quanto mais treinar, melhores serão os resultados. Mas a verdade é outra: overtraining — ou síndrome de excesso de treino — está levando pessoas saudáveis, com exames em dia, ao limite físico e emocional. Em alguns casos, até à morte.

Em Salvador, dois episódios recentes chamaram atenção: Camilla Angheben, empresária de 36 anos, sofreu uma parada cardíaca durante uma corrida de rotina; e Antônio José da Costa Assis, também com 36 anos, não resistiu após a Corrida do Martagão Gesteira. Ambos estavam ativos, tinham hábitos saudáveis — e nenhum histórico grave de doenças.

Então, o que está acontecendo? Por que o esporte, que deveria ser sinônimo de vida, está virando vilão?

Antônio José Da Costa Assis tinha 36 anos e morreu após a corrida por Reprodução
Antônio José Da Costa Assis tinha 36 anos e morreu após a corrida por Reprodução

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Camilla Angheben

 

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Empresária de 36 anos sofre parada cardíaca durante corrida

O Que É Overtraining — E Por Que Ele Ameaça Mais os Amadores do Que os Profissionais

Contrariando a intuição, o overtraining atinge com mais frequência os atletas amadores. Isso acontece porque, embora treinem com a mesma intensidade — ou até mais — que profissionais, eles raramente têm o suporte técnico, o planejamento estruturado ou os períodos de recuperação necessários.

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Segundo o ortopedista Dr. David Sadigursky, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, o problema começa quando a carga de treino supera, de forma crônica, a capacidade de recuperação do organismo:

“O esporte se torna um vilão quando a paixão e a determinação superam a sabedoria e o respeito aos limites do corpo. Para o indivíduo destreinado, a linha entre o estímulo que gera adaptação e a sobrecarga que gera lesão é muito tênue.”

Ou seja: treinar mais não significa progredir mais. Na verdade, pode ser o caminho mais curto para a estagnação — ou para o colapso.

Como o Corpo Reage ao Excesso: Da Fadiga ao Burnout Esportivo

No início, o corpo até responde bem ao aumento da carga — mas é uma melhora ilusória. Por trás, um “déficit de recuperação” vai se acumulando, até que sistemas vitais entram em sobrecarga:

  • Sistema nervoso central: fadiga mental, irritabilidade, perda de foco
  • Sistema imunológico: gripes frequentes, infecções de repetição
  • Sistema hormonal: alterações no sono, ansiedade, queda de libido
  • Aparelho locomotor: dores persistentes, tendinites, fraturas por estresse

Isso não é só “cansaço normal”. É o corpo pedindo socorro. E quando esses sinais são ignorados por muito tempo, o desfecho pode ser o burnout esportivo — um esgotamento físico e emocional tão profundo que muitos abandonam o esporte por completo.

Como Identificar o Overtraining Antes Que Seja Tarde

O Dr. Thiago Santos, especialista em dor e ortopedia esportiva, reforça: alguns sinais exigem atenção imediata. São eles:

  1. Cansaço que não passa, mesmo após dias de descanso
  2. Queda no desempenho, mesmo com treinos intensos
  3. Dores contínuas, que atrapalham atividades do dia a dia — como subir escadas
  4. Mudanças de humor: irritabilidade, apatia ou ansiedade constante
  5. Sono desregulado: insônia ou sono não reparador
  6. Adoecimento frequente, como resfriados recorrentes
  7. Lesões sucessivas — tendinites, estiramentos, fraturas por estresse
  8. Obsessão pelo treino: culpa ao faltar, treinar mesmo com dor

Se você reconhece três ou mais desses sintomas, é hora de parar — e procurar ajuda.

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A Metáfora da Faixa Preta: Por Que Você Não Pode Pular Etapas

O educador físico Anderson Lopes, sócio de um grupo de corrida em Salvador, usa uma analogia poderosa:

“Na corrida, devemos respeitar como se estivéssemos fazendo judô. Você começa na faixa branca ou já vai para a preta? É a mesma coisa. Tem que começar do zero e crescer dentro do seu limite, passando de faixa.”

Ou seja: ninguém vira maratonista em seis meses se nunca fez um treino orientado. E, sim — é possível evoluir de amador a atleta de alto desempenho. Mas só com paciência, planejamento e respeito ao próprio corpo.

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Empresária de 36 anos sofre parada cardíaca durante corrida

Quatro Avaliações Essenciais Para Quem Quer Treinar com Segurança

O Dr. David Sadigursky lembra que o exame cardiológico, embora crucial, não é suficiente. Para uma prática esportiva segura, é preciso uma abordagem multidisciplinar e preventiva. Veja as quatro avaliações fundamentais:

1. Avaliação Musculoesquelética Detalhada

Identifica lesões antigas, desequilíbrios musculares e pontos de fraqueza que podem se tornar gatilhos para novas lesões.

2. Estado Físico Geral e Composição Corporal

Avalia percentual de gordura, massa muscular e parâmetros metabólicos — essenciais para personalizar a carga de treino.

3. Avaliação Nutricional e Metabólica

Uma dieta inadequada pode sabotar até o melhor plano de treino. E não estamos falando apenas de calorias: vitaminas, eletrólitos e hidratação também contam.

4. Análise Biomecânica e de Movimento

Estuda postura, padrões de corrida, impacto articular — e ajuda a corrigir vícios antes que virem lesões.

Essas avaliações formam a base da avaliação pré-participação esportiva (PPE), ferramenta indispensável para quem quer evoluir sem arriscar a saúde.

overtraining

Descanso Também É Treino — E Isso Não É Frase de Efeito

Muitos confundem disciplina com rigidez. Mas a verdade é que o corpo se adapta — e se fortalece — durante o descanso, não durante o exercício.

Por isso, dias de recuperação ativa, sono de qualidade e pausas estratégicas não são “perda de tempo”. São parte essencial do progresso.

Aliás, o próprio conceito de overtraining nasce quando esses intervalos são sistematicamente ignorados — e o organismo é forçado a operar acima de sua capacidade real, semana após semana.

Treine com Sabedoria, Não Apenas com Paixão

O esporte é, sim, vida. Mas só quando praticado com consciência, orientação e respeito aos próprios limites.

Os casos de Camilla Angheben e Antônio José da Costa Assis não são “acidentes isolados”. São alertas urgentes para uma cultura que glorifica o excesso — e silencia o descanso.

Se você sente que está empurrando o corpo além do possível, pare. Procure um educador físico, um médico do esporte, um nutricionista. Peça ajuda antes que o corpo faça isso por você — do jeito mais duro possível.

Afinal, o verdadeiro atleta não é quem treina até cair. É quem sabe quando parar — para voltar mais forte.

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